December 7, 2025

Torneio após torneio, a atenção dos adeptos de padel em Portugal nas provas do World Padel Tour está centrada nas prestações de Sofia Araújo e de Ana Catarina Nogueira, os únicos atletas portugueses com lugar cativo na elite do padel mundial. Porém, o português que mais vezes marcou presença nos jogos decisivos do WPT chama-se Nuno Moreira. Após começar a arbitrar padel quase por acaso em 2018, o portuense já conta aos 29 anos no currículo com 11 presenças em finais da competição, oito delas este ano. Nesta primeira parte de uma conversa com o Padel 365, Nuno Moreira admite que “é mais fácil arbitrar mulheres do que os homens”, conta como foi a sua primeira experiência internacional, um torneio em Vigo onde “aconteceu de tudo”, e revela quais são os jogadores mais fáceis e mais difíceis de arbitrar.

Como é que começou a ligação ao padel?
Comecei a jogar em 2016 ou 2017, através da influência de um amigo. Já tinha jogado ténis e joguei futebol durante muito tempo. Sempre estive ligado ao desporto. Nessa altura estava na faculdade e surgiu a hipótese de ir trabalhar para um clube de padel, a Quinta de Monserrate.

E à arbitragem?
Quando comecei a jogar, o padel ainda não tinha a grandeza que tem hoje, mas havia muitos torneios sociais e muitos non stops, onde eu estava na parte da organização e gestão. Nessa altura quase tudo era feito de forma manual. Os quadros eram feitos à mão em Excel e eu sempre estive perto disso. Os sorteios eram feitos pelo juiz árbitro e eu iam vendo. Meio por brincadeira, em 2018 houve um torneio da Quinta de Monserrate em Braga e não havia juiz árbitro. Inscrevi-me num curso que durou um fim-de-semana para ajudar o clube, sem pensar que fosse fazer disso vida. Uma semana depois já estava a arbitrar o torneio.

Como foi dado o passo seguinte que permitiu chegar a torneios internacionais?
Tive a hipótese em 2019 de fazer o World Padel Tour em Cascais. Foi o meu primeiro contacto com um torneio internacional. Nesse WPT, a equipa não era a de hoje, embora houvesse nomes que coincidem. Mas logo aí ficaram com o meu contacto. No ano seguinte, recebi um email do Paco [Francisco Rodríguez Aparicio], que atualmente é o supervisor dos árbitros e que escreveu o regulamento de árbitros da FIP – ele está nisto há mais de 30 anos e é uma referência na arbitragem -, a perguntar se eu estava interessado em fazer alguns torneios. Disse que sim, mas depois surgiu a pandemia e só ficaram cinco ou seis árbitros. Não voltei a arbitrar até 2021, quando estive no primeiro torneio do ano, em Vigo.

Como decorreu esse torneio?
Aconteceu de tudo. Nas prévias, num match point que dava a passagem ao quadro, o Aris [Patiniotis] fez uma bandeja e ao bater na bola fez uma rutura total do tendão de Aquiles. Foi chocante, por que ele estava aos berros com as dores, mas ficou a dúvida se ele ganhou o ponto ou perdeu. Há outra história que hoje já quase ninguém se lembra, mas num jogo do Semmler e do Javi Ruiz contra o Silingo, há um ponto muito duvidoso, e eles chocaram uns com os outros. Era tudo novo para mim e fiquei um bocado, não vou mentir, à toa… Nesse torneio aconteceu-me de tudo.

Quantos árbitros existem atualmente no WPT?
Em 2023, somos no mínimo seis árbitros por torneio. À medida que a semana vai avançando, vão ficando menos e à sexta-feira, sobram três. Para sábado e domingo, ficam dois.

A maioria serão espanhóis…
Certo. Há um argentino, eu e o resto são espanhóis…

Em quantas finais do WPT já esteve e qual foi a primeira?
A de Malmo foi a décima primeira. A primeira foi em Cascais, em 2021. Nesse ano, acho que foi a única final. No ano passado, penso que foram duas. Este ano já foram oito.

Qual foi o jogo ou situação mais difícil no WPT?
O mais conhecido e recente, foi este ano numa meia-final e no último ponto, que toda a gente comentou. No vídeo vê-se mal, mas na cadeira vi perfeitamente. Foi num Tapia/Coello contra o Galán/Lebrón. No match point, o Coello pisou a rede, mas não sentiu. Houve um burburinho, mas da cadeira para mim foi claro. Não fiquei com qualquer dúvida, mas no vídeo não foi claro. Ficou a dúvida, mas eu estava seguro da minha decisão.

Quem é o jogador com o feitio mais complicado dentro do campo?
Toda a gente sabe que o Lebrón é muito competitivo e é difícil arbitrá-lo… Este ano tive em dois torneios seguidos uma situação com o [Juan] Tello e o Alex Ruiz, que foi chata. Ao terceiro, já entras nervoso – e eu nem sou de ficar nervoso.

E os jogadores com quem é mais fácil arbitrar?
O Tapia e o Coello normalmente não dizem nada, para bem ou para mal. A Bea [Gonzalez] está sempre de sorriso na cara. A Paulita [Paula Josemaría] igual. Cada jogador tem a sua forma de ser e, com o passar do tempo, ficamos a saber como lidar com cada um. Se calhar, não podes falar da mesma forma com o Paquito e o Chingotto. E há jogadores que te pedem uma advertência. Que precisam disso para se acalmarem. Cá em Portugal – e dou-me bem com ele -, posso dar o exemplo do [Pedro] Perry. Ele faz isso muitas vezes. Diz-me que se se portar mal, para dar logo a advertência, por que assim já sabe que não faz mais…

É mais fácil arbitrar um jogo de homens ou de mulheres?
Pessoalmente, acho que é mais fácil de mulheres. Elas são menos conflituosas entre elas e o que estiver cantado, está cantado. No máximo, pedem uma revisão de vídeo. Os homens não, gostam de discutir… Há sempre um picanço entre eles, que torna tudo mais difícil…