– Artigo de opinião de João Plantier –
“I believe that children are our future, teach them well and let them lead the way”. Esta letra, cantada pela Whitney Houston, inspirou e foi banda sonora de muita gente nos anos 80/90. Mas não é de música que venho falar. A nossa modalidade/atividade tem crescido de forma consistente nos últimos anos, conquistando praticantes de todas as idades, géneros e níveis de experiência. No entanto, há uma narrativa que começa a dominar o discurso do desenvolvimento desportivo: a ideia de que “as crianças e jovens são o futuro do padel”. Embora popular, esta visão merece ser posta em causa. Não por desvalorizar os mais novos, mas por ignorar o verdadeiro motor do sucesso da modalidade: a sua natureza inclusiva e social. O padel é mesmo para toda a gente.
Mas qual é afinal o problema de enfocar ou privilegiar os jovens? Em primeiro lugar, ao colocar a atenção apenas nesse segmento, acaba-se por negligenciar os adultos, que representam a grande maioria dos praticantes e dos consumidores diretos da modalidade. Por outro lado, ao focar-se apenas nos jovens com potencial competitivo, podemos criar um sistema que exclui os que jogam por prazer, saúde ou socialização, incluindo crianças e jovens. Isso contradiz o espírito democrático do padel. Por último, é sabido e largamente documentado, que muitos jovens abandonam o desporto na adolescência. Nesse sentido, apostar exclusivamente neles como “futuro” é arriscado, se não houver uma cultura desportiva e um vínculo social que os mantenha ligados à modalidade ao longo da vida.
Como treinador, há outros dois pontos que queria realçar, como consequência deste enfoque estreito: A standardização dos treinadores e a uniformização das competições. Se acharmos que apenas as crianças são o futuro, estaremos a forçar a criação de um perfil de treinador centrado na performance juvenil, tipicamente incapaz de adaptar os seus métodos a públicos diversos. O treinador deixa assim de ser um facilitador da experiência desportiva (e de ativação de jogadores) para se tornar (apenas) num técnico de rendimento. Isso tem reflexo aliás na formação de treinadores.
As competições, essenciais para o desenvolvimento da modalidade, tendem também a cristalizar-se em modelos competitivos tradicionais, perdendo-se a oportunidade de criar formatos mais lúdicos, mistos, intergeracionais ou temáticos que poderiam atrair públicos diferentes e revitalizar o interesse pela prática.
Termino esta reflexão com um esclarecimento e uma nota de otimismo. Nada tenho contra o padel competitivo, sejam crianças, jovens ou adultos. Acho sinceramente que se tem trilhado um caminho positivo, fruto aliás de trabalho de treinadores dedicados, pais, clubes e dos próprios jogadores. Apenas quis alertar para a necessidade de ver o padel como um todo, dando atenção aos diversos públicos que jogam ou querem começar a jogar padel.
Há umas semanas joguei e jantei com um grupo de veteranos do padel. Quando fiz uma breve comunicação a todos eles, comecei com a frase inspirada na Whitney Houston: “Acredito que vocês são o futuro!”. Não o fiz para arrancar aplausos, mas para deixar claro que todos os grupos, incluindo os mais velhos, têm lugar no futuro do padel. Trabalhemos nesse sentido.
